THE NORTH FACE XTERRA ENDURANCE 80K

30 04 2012

Os 80km do The North Face Xterra de Ilhabela foram um misto de muitos sentimentos diferentes. Eu diria, resumindo, que foi a realização de um sonho e de que somos capazes de muitas coisas que não imaginamos. Basta querer.

Eu sabia da dificuldade envolvida, sabia que a missão era um tanto quanto difícil. Oitenta quilômetros de bike já é muito, imagina a pé! Adversárias fortes, calor, percurso técnico, altimetria pesada. O que mais eu poderia querer? A dificuldade me encanta, a superação nem se fala. Eu tinha um prato cheio diante de mim.

Largamos às 13:15 da tarde, debaixo de calor e umidade. Eu estava equipada para uma longa jornada. Mochila TNF Enduro 13, Single-Track no pé, Hammer Gel, Perpetuem, Heed, protetor solar e é claro, um Ipod, com uma playlist recheada de incentivo.

Larguei muito calma, muito concentrada. Não prestei atenção em nada. Eu só pensava em mim e na trilha. Eu estava focada, quase em transe. Ocupava a quarta posição no princípio, e quando começaram as subidas fui buscando melhorar. Consegui alcançar a ponta ainda no trecho onde foi o percurso do mountain bike do triathlon. Quando cheguei perto do asfalto fui ultrapassada pela Tracy e pela Cyntia.

O longo trecho de asfalto foi sofrido. Comecei a ter dores no estômago e diarréia. Foi muito difícil para mim, mas eu resolvi pensar diferente. Numa hora dessas é mais fácil pensar que a dificuldade veio para te derrubar. Dói. Dói demais! Mas eu resolvi pensar diferente. Pensei que aquilo era mais uma dificuldade pela qual eu deveria passar. Aquela era uma dor com a qual eu iria conviver até cruzar a linha de chegada e eu simplesmente aceitei isso. Eu corria ao lado da Tracy e às vezes entrava correndo no mato num ato de desespero. Voltava para a prova e corria forte para buscá-la de novo. Nós disputávamos o segundo lugar e a Cyntia liderava.

Entramos na trilha do Bonete e ali comecei a me sentir melhor. Abri da Tracy. Já estava escurendo e o calor tinha dado uma trégua. Eu me alimentava e me hidratava. Sabia que meu corpo estava debilitado e buscava não deixar faltar energia.

Num certo momento alcancei uma luz. Lá estava a liderança da prova. Eu me sentia muito bem e motivada, então passei forte, sem olhar para o lado. A trilha muito técnica e escorregadia.

Abri bastante e fiquei sozinha um tempão. Eu cruzava cachoeiras, corrida em cima de pedras, para cima e para baixo, delirando com tudo aquilo. Em certos momentos eu me pegava de braços abertos, sorrindo e curtindo a energia daquele lugar. Eu pensava para mim mesma que tinha que aproveitar aquele momento porque ele estava muito bom.

Quando percebi já estava no quilometro 45, o primeiro Special Needs. Passei voando e só peguei o sanduíche que havia deixado. Fome a gente não sente, mas a gente come. O sanduíche vira combustível numa questão de segundos e nos dá energia para seguir.

Acho que de ali em diante, até chegar na praia de Castelhanos, foi a parte mais cruel do percurso. Cruel, porém a mais legal. Pegamos uma trilha que levava para a praia e que era uma piramba interminável, extremamente técnica. Light sticks indicavam a direção, que não era para frente, e sim para cima. Uma loucura! Não se via mais de uma luz de uma vez. Era muito alto. Chovia muito, muitos galhos e pedras escorregadias, buracos e armadilhas. Foi duríssimo.

Minha lanterna começava a piscar, mas eu havia deixado uma reserva no quilometro 60, no segundo Special Needs. Quando comecei a descer imaginei que a praia estivesse chegando. Quando cheguei lá embaixo pude ver aquela linda faixa de areia iluminada por uma grande quantidade de tochas. Cheguei ao quilômetro 60!

Muitas pessoas estavam lá e me incentivavam pelo tempo que estava fazendo. Eu ocupava a sexta posição geral na prova. Quando fui pegar o meu Special Needs ele não estava lá. Não só o meu, mas o de ninguém dos 80km. Vi que aquilo poderia ser um grande problema. Não pelo sanduíche, tênis e corta vento que eu havia deixado, mas pela lanterna reserva. Consegui ali, de um corredor que havia desistido dos 50km, uma pequenina lanterna. Peguei uma banana, uma mão cheia de amendoim e segui.

Eu estava motivada e forte, então entrei na estratégia da iluminação. Comecei a correr no escuro, só no led, para economizar para a descida. Chovia muito e o fog estava intenso. Eu corria e quando sentia que estava muito pesado, imaginava que estava numa subida inclinada. Não dava para enxergar quase nada. Caminhava num ritmo forte até que aliviasse um pouco, e voltava a correr.

Quando cheguei no quilometro 70 estava no topo da subida de Castelhanos. Imprimi um ritmo muito forte e comecei a descer. O batedor veio de moto me acompanhar e falou que iria comigo até a chegada. Eu não sabia onde estava a segunda colocada, então descia muito rápido, buscando a certeza de que o primeiro lugar seria meu. Quando cheguei perto do quilometro 75 encontrei o Marcelo Sinoca, do time The North Face. Motivei para que ele viesse comigo e seguimos juntos, muito forte. Quando chegamos no plano ele abriu. Eu não bebia água, não falava, não pensava. Eu só corria. Corria como se meu corpo fosse uma máquina. A máquina que cumpriu os 80km de Ilhabela, motivada por um coração. Esse coração sim, enorme, maior que tudo, cheio de positividade e paixão pelo esporte, pela natureza, pela vida.

Não tenho muitas palavras que traduzam essa vitória. Tenho um sorriso para traduzir.

Agradeço muito a torcida de todos e fica a dica: Love your life, Love what you do. NEVER STOP EXPLORING!

Parabéns a todos os competidores, em especial ao meu amigo e treinador Iazaldir Feitoza, que conquistou o primeiro lugar geral masculino, meu amigo Chico Santos que conquistou o segundo geral masculino e meu amigo de equipe Marcelo Sinoca que conquistou o quinto lugar geral masculino.

English version

The North Face 80km Endurance race in Ilhabela, São Paulo, was a mixture of many different feelings. I would say, in summary, that it was a dream come true and that we are capable of many things we never can imagine. We just need to want.

I knew about the difficulty involved, knew the mission was quite big. Eighty kilometers in a bike is already a lot, imagine running! Strong opponents, heat, technical route, heavy altimetry. What more could you want? The difficulty delights me, not to mention overcoming. I had a full plate before me.

The start was at 13:15, under a great amount of heat and humidity. I was equipped for a long journey. TNF Enduro 13 backpack, Single Track running shoes, Hammer Gel, Perpetuem, Heed, sunscreen and of course, an Ipod with a playlist filled with excitement.

I started off very calm, very focused. I did not pay attention to anything. I just thought of me and the track. I was focused, almost in a trance. I was in fourth position in the beginning, and as the climbs started to appear I started to improve. I managed to reach first place after 10km of racing but when I got to the pavement I was overtaken by Tracy and Cynthia. The long part of asphalt was suffering. I started having stomach pains. At a time like this is easier to think that the difficulty came to knock you down. It hurts. It hurts too much! But I decided to think differently. I accepted the fact that I had to deal with that pain till the finish. I ran alongside Tracy and sometimes had to go running into the woods in an act of desperation. I returned to the race and had to run hard to get back to her again. We were fighting for second place and Cynthia was in the lead.

We entered in the Bonete Trail and I suddenly started to feel better. That´s when I noticed I was running solo in second place. It was already getting dark and the heat had diminished. I ate and hydrated. I knew my body was weak and I payed attention not to lose energy.

I ran and ran till I reached a light. That was lead of the race! I felt very well and motivated so I passed Cyntia, always looking ahead. The trail was very technical and slippery.

I ran ahead and was by myself for a very long time. I crossed waterfalls, ran on top of rocks, up and down, happy with everything that was happening. In certain moments I caught myself with open arms, smiling to the sky and feeling the energy of that place. I thought to myself that I had to seize that moment because it felt so good.

When I noticed I had already reached kilometer 45, the first special needs of the race, I “flew” by and got the sandwich I had left. I didn’t feel hungry at all, but I know that food transforms into energy in a question of seconds and it gives us more energy to move on.

I think that from this moment, till I reached the beach of Castelhanos, was the most cruel and most fun part of the race. We entered a trail that took us to Castelhanos and it was a terrible climb, extremely technical. Light sticks indicated the correct direction, except it wasn’t forward, but upward. It was insane! You could’t see more than one light at once. It was very high. It poured rain and the trail was very slippery, with holes and traps. It was very tough.

My headlamp was starting to flash, but I had an extra one in kilometer 60, the second special needs of the race. As I started to go down I figured out I was getting to the beach. As I reached the sand I could see that beautiful sequence of lights leading to the area of supply. I got to kilometer 60!

Many people were there and cheered as I passed by. I was in 6th position overall. As I asked for my special needs it wasn’t there. Not only mine, but anyone’s I saw that it could become a big problem. Not for the sandwich, the clean shoes or jacket that I left, but for the headlamp. I was able to borrow a small light from a runner that had quit the 50km race. I got a banana and a handful of peanuts and left.

I felt strong and motivated, so I began a strategy with the light I had. I ran in the dark to save light for the downhill. It rainned a lot and the fog was very strong. I ran and as I felt it was too heavy I realized I was in a heavy climb. I could barely see, so I walked at a strong pace till I could go back to running.

As I reached kilometer 70 I was in the top of the hill of Castelhanos. I increased my speed and started to run downhill, for my last 10km to the finish. The race assistant in the motorcycle came and told me he would follow me till the finish since I was the leading woman. I didn’t know who and where was the second place, so I ran very fast, trying to guarantee that the first place would be mine. When I got close to kilometer 75 I reached Marcelo Sinoca, also from The North Face team. I cheered for him to run with me and we went together, at a very strong pace. As we reached the flat he went ahead.

I didn’t drink water, I didn’t speak, I didn’t think. I Just ran. I ran as if my body was a machine. The machine that fulfilled the 80km of Ilhabela, motivated by a heart. This heart, huge, bigger than everything, full of positivity and passion for sport, for nature, for life.

I don’t have many words to translate this victory. I have a smile that may express my feelings.

I really apreciate the support of everyone and here’s my tip: Love your life. Love what you do.


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7 responses

30 04 2012
Amanda carvalho

Manu vc é o MÁXIMO !!! Bravo bravíssimo!!! Saudades…

30 04 2012
manuvilaseca

Obrigada Amanda! Muita saudade! Cadê vc??
Bjss

30 04 2012
Mariana

Manu querida!!! Vc conquistou o que vc merece!!! Parabens!!! maior orgulho!!! Agora estou agitando o grupo aki em Londres!!! Proud of you Little!!! Bjao Mari

30 04 2012
manuvilaseca

Wohooooo Xavi!!!! Que saudade! Vamos arrepiar em London Baby! rsrs
Bjão

8 05 2012
Gabriel

Show, parabéns!!!

8 05 2012
manuvilaseca

Obrigada Gabriel!

27 05 2012
Raf

😀 veeeery impressed !!!

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