Para minha avó

21 03 2012

Hoje foi um dia triste. Um dia de reflexão também. Na parte da tarde, enquanto trabalhava, recebi um telefonema da minha irmã me pedindo que fosse à casa da minha avó materna. Ela estava cega.

Em um instante, sem pensar mais nada, peguei minha mochila e saí. Fui para a casa dela, sem saber muito bem o que esperar. Minha mãe ligava, minha irmã ligava, meu pai ligava. Todos estavam querendo saber notícias e eu nem sequer havia chegado lá.

Quando entrei na casa dela, ela estava em pé, vestida com jeans, camiseta e óculos escuros.

“Helô, o que você está fazendo de óculos escuros,” eu disse.

Segundo ela, o Jorge, marido dela, havia sugerido os óculos para que ela se acalmasse. A casa estava escura, com os óculos mais ainda! Tirei do rosto dela e comecei a providenciar as coisas para que a gente fosse para o hospital.

Enquanto isso eu escutava coisas “absurdas”, como num filme de Woody Alen. Ela procurava maquiagem, colônia (do tipo, não vivo sem) e a tal sapatilha de cobrinha. Uma loucura, minha avó Heloisa, com quase 90 anos , acorda sem enxergar nada, e na hora de ir ao hospital está em busca do seu “kit de beleza”. Talvez essa loucura toda tenha sido importante para não me deixar tão triste.

A caminho do hospital minha cabeça começou a dar voltas. O dia estava lindo. A paisagem da Barra até Copacabana, pela orla, é deslumbrante. Minha avó não via nada. Aquilo foi me dando uma tristeza tão grande.

Fui pensando na vida e como são as coisas. Como a vida passa tão rápido. Como somos jovens e quando nos damos conta tudo já passou. Como o nosso organismo vai degenerando e como vamos voltando a ser crianças, voltando a necessitar de ajuda e de alguém que cuide da gente. Ela repetia, “não é possível, eu acordei cega”, e isso ecoava na minha cabeça.

Como fiquei triste. Nessa hora dá vontade de voltar atrás. Dá vontade de rebobinar a vida como fazíamos com uma fita de vídeo cassete. Dá vontade de ter aproveitado mais os momentos ao lado da minha avó. Pensei nas vezes que podia ter ligado e não liguei. Nas vezes que poderia ter feito uma visita e não fiz.

Parece que a vida passa mesmo num piscar de olhos, nos olhos da mesma pessoa que me admirava mais tarde na fila da emergência, já dizendo que voltava a ver algumas coisas.

“Você está tão bonitinha,” ela me disse. “Eu estou te vendo”.

Foi a vida oferecendo mais uma chance. Uma esperança de tudo isso ser passageiro e de me mostrar que ainda existe vida pela frente para que eu possa aproveitar todos os momentos que não aproveitamos juntas.

Hoje meus pensamentos estão todos em você, vovó Heloisa, minha querida avó que eu quero tanto e que eu espero muito em breve ver em casa.

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4 responses

21 03 2012
acruzcosta

Tudo de bom para sua vovó e que ela se mantenha bem por muitos anos, apesar do ocorrido.

21 03 2012
manuvilaseca

Obrigada

Acho que é o tipo da coisa que nos faz refletir. Temos que aproveitar a vida junto das pessoas que gostamos.

4 04 2012
Rosemary Franca Gonzales

É AMIGA MANÚ COM CERTEZA TEMOS QUE APROVEITAR CADA SEGUNDO DO LADO DA FAMILIA E AMIGOS POIS SÃO ELES QUE NOS SUSTENTAM NAS NOSSAS HORAS DIFICÉIS.
ESPERO QUE SUA VOVÓ ESTEJA MELHOR.
SE CUIDA. DE QUEM NUNCA TE ESQUECE ROSE CASAL 20.
BEIJUS.

5 04 2012
manuvilaseca

Obrigada pela força, Rose. Eu tenho certeza de que a energia dos amigos ajudam muito nesse momento. Grande beijo

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