RELATO TIERRA VIVA 2012

1 03 2012

O Tierra Viva, minha corrida de aventura de expedição favorita, em 2012 faria parte do circuito mundial ARWS. Como a corrida sempre começa antes da largada, a saga dessa vez foi arrumar uma equipe. Acho que duas semanas antes da prova conseguimos atingir essa meta, é claro que pelo enorme desejo de participar e a força de acreditar que vai dar certo até o final. A equipe Cristagua esse ano era composta por Daniel Pincu, Fernando Aparo, Nicolas Alfageme e eu.

Cheguei com antecedência mas até o último minuto ficamos trabalhando para a logística dessa enorme prova. Esse ano, mais uma vez, tinha como estrutura um camp central onde deixamos uma barraca com todos os nossos pertences. Por ali passaríamos 4 ou 5 vezes na prova. A novidade é que nós só ganharíamos os mapas da próxima seção quando terminássemos uma. Os pcs poderiam ser pegos em diferentes ordens, o que faria com que a liderança da prova não fosse exatamente conhecida até o final. Estratégia era a palavra chave.

Largamos na segunda do acampamento central. Na verdade foi uma largada controlada, em mountain bike, até a largada real na beira do lago Lolog. Quando chegamos no camp para pegar nossas bicicletas o pneu do Fer estava furado. Trocamos rapidamente e saímos. Assim que saímos o pneu do Dani furou. Incrível! Falei que aquilo só podia ser muita sorte, porque furar 2 vezes antes da prova começar já nos ajudava. O cronômetro ainda estava desligado…

Chegamos no Lolog e ali sim começou a tensão pré prova. Fazia frio e ventava. A primeira canoagem prometia ser duríssima pois deveríamos encarar ventos fortes para pegar 7 pc’s e chegar ao fundo do Lolog até voltar. Eu sabia o quanto aquele lago era GIGANTE! Corremos em volta dele no La Mision e ele era interminável. Botei o neoprene, preparei o caiaque e quando me dei conta já estávamos fazendo a contagem regressiva. No zero puxamos os caiaques, pulamos nos nosssos lugares, cavando a pá dentro d’água e tentando fazer aqueles monstros pesadíssimos se moverem.

O que posso dizer é que até chegamos a baía melon, praticamente no fundo do Lolog, foi muito sofrido. O vento contra era forte e o ritmo das equipes também. A Seagate, melhor equipe do mundo, disparou na frente. Já nós, mortais, parecíamos gladiadores lutando contra toda aquela dificuldade. Estávamos entre os primeiros, empatados com a equipe Zenith e mais uma equipe de Córdoba. A prova começava a se despedaçar e os pelotões se formando.

Na volta pegamos um trecho de muito vento nos empurrando. Tínhamos colocado uma vela no caiaque. O vento era tão forte que a vela não ficava em pé sozinha, então eu, que estava na frente, parei de remar e comecei a segurar a vela, caçando o vento. Nessa hora praticamente voamos! O Fer remava sozinho atrás, mas quase sem fazer força porque a vela nos jogava para frente e, com a ajuda das ondas, surfávamos enquanto eu vibrava gritando, “ wohoooo!!!!” Foi muito divertido!

Nessa hora alcançamos a equipe Zentith, que tinha aberto uma vantagem, e foi engraçado ver a cara de desespero deles ao olhar para o lado e ver que nós estávamos de vento em popa!

Terminamos esse primeiro trecho junto com a equipe Zenith, em segundo lugar na prova. Fizemos uma rápida transição pois já estávamos morrendo de frio. Pegamos nossas bikes e voltamos ao camp central. Quando chegamos ali recebemos o mapas para a segunda seção.Bike longa alternada com dois trekkings, um longo e um curto. A ordem? Não importava. Começava ali a estratégia. Optamos pelo trekking curto primeiro.

Saímos em mountain bike em direção a Junin de Los Andes, em ritmo forte. Fizemos um pelotão e seguimos focados. Já estava anoitecendo. Passamos pelos pc’s no caminho até chegarmos a Laguna Verde, onde seria o início do trekking curto. Fazia um frio animal! Eu já conhecia Laguna Verde de outras provas e sabia do frio que fazia ali. Deixamos nossas bikes e saímos para o Vale da Lua, onde se encontravam 2 pc’s da prova.

O trekking, apesar de curto, foi muito duro. O Vale da Lua é composto por areia vulcânica, SUPER pesada e que torna nossa progressão lenta, fora o desgaste. Pegamos o primeiro PC, que estava bem escondido, e saímos em busca do segundo, que era bem na borda do cráter de um vulcão. A subida desse vulcão foi intensa, mas chegamos lá em cima junto com a equipe francesa, que havia começado a subir antes e que não tinha pego ainda o outro PC.

Depois disso só alegria, pois a descida super inclinada pode ser feita correndo, de frente, já que essa areia nos faz afundar até a metade da canela. Cruzamos com muita equipes subindo, cada uma com sua estratégia. Nunca sabemos quem está no nosso calcanhar!

Chegamos às bikes e fomos pedalando até o início do outro trekking. Quando cheguei lá notei que tinha trazido pouca comida. Saquei rapidamente que ia passar fome. Começamos a subir e esse trekking realmente era GIGANTE! Passamos por trechos por onde estivemos no La Mision. O lugar é realmente lindo, de tirar o fôlego! A primeira noite já havia passado e fazia um dia lindo de sol.

Num certo momento cruzamos para a esquerda e descemos muito por um vale. Tínhamos que chegar no rio que tinha lá embaixo, mas mais ou menos na metade da montanha nos deparamos com mato fechado. Fechado era pouco, aliás, era muito fechado, e tudo composto por arbustos de espinhos. Cenário terrível! Ali estávamos com a equipe Zenith e a equipe Buff. Nesse momento começamos um interminável sobe e desce pela montanha, buscando a parte ais limpa para descer e varar o mínimo de mato possível. Era uma tarefa árdua. Uma tempestade de aproximava e os ventos estavam muito fortes. A descida muito técnica. O cenário começava a ficar feio. Subimos a montanha toda até que olhamos uma parte mais clara. Decidimos descer por ali. Descemos muito e na hora que chegamos no mato ele era, mais uma vez, ultra fechado. Ali era um mato sem saída, impossível! Varar aquilo nos tomaria horas e horas, fora o desgaste absurdo. Foi então que me ocorreu uma idéia.

Era possível ver uma depressão na vegetação. Ali parecia uma vala, um buraco, ou um rio. Eu sabia que por pior que fosse a descida por ali, ainda seria melhor do que varar o mato que tínhamos diante de nós. Fiz essa sugestão ao nosso navegador, Fer, e ele topou. Por ali fomos, e atrás de nós a equipe Zenith. Depois de ver aquele cenário tão horrível, a passagem por ali parecia tranqüila. Acho que tranqüila não é exatamente a palavra, mas era uma passagem transitável. E por ali descemos a montanha. Passamos por partes muito fechadas, outras menos, alguma perigosíssimas, mas conseguimos chegar no rio. Quando olhei para cima vi que umas 5 equipes desciam por ali também. Acho que abrimos o caminho para eles.

Seguimos na trilha e em 30 minutos alcançamos o PC. Ali o staff nos alertou da terrível noite que teríamos pela frente. Previsão de ventos fortes, de inclusive neve na montanha. Nos orientou a não subir, mas isso não faz sentido nenhum na cabeça de competidores famintos sem parafusos nas cabeças. Começamos a subir a mais alta das montanhas. O dever não era fácil. A nuvem negra já se aproximava trazendo os ventos fortes e a chuva. Paramos para nos abrigar e ali vinha a equipe Zenith no nosso calcanhar. Botei todas as minhas roupas de frio, que aliás foram perfeitas! Obrigada THE NORTH FACE!

Essa subida foi dura, com chuva e vento. O PC estava bem escondido. Navegar no trekking à noite é sempre muito difícil. As referencias desaparecem e muitas vezes pensamos estar em um lugar quando na verdade estamos em outro. Quando encontramos o PC, os 8 juntos, nos agarramos uns aos outros protegidos atrás e umas pedras. Os ventos eram fortíssimos e nos atiravam no chão! Nesse momento começamos a buscar a trilha que nos levaria para baixo mas estava muito difícil de achá-la. Estávamos cansados e a busca só nos deixaria ainda mais esgotados.

Resolvemos parar para dormir, em um lugar um pouco mais abrigado. Fizemos um fogo e nos aglomeramos em volta dele. A equipe Zenith fazia tudo que nós fazíamos e pararam conosco. Dormimos mais ou menos duas horas, até que abri os olhos e percebi que o céu começava a clariar. Era hora de sair dali. Acordei todo mundo e começamos a nos arrumar para sair.

Nesse momento aconteceu uma coisa muito desagradável. Coisa da qual não quero nem comentar publicamente no meu blog, mas coisa da qual acabou resultando na desclassificação da equipe Zenith. Para mim uma decepção, mas prefiro não falar sobre esse assunto. Desse ponto em diante não vou citar mais essa equipe no relato, pois desse ponto em diante ela deixou de existir para mim.

Com a luz do dia foi fácil achar a trilha e descer da montanha. Incrivelmente estávamos perto do PC, mas com a noite e o cansaço a nossa capacidade altera muito. Sábia decisão do nosso capitão Daniel Pincu, que nos fez parar e descansar. Acordamos mais inteiros e não nos desgastamos para chegar ao PC. Chegamos às nossas bikes e faltava pedalar 40km até o camp, passando por um PC em Puerto Arturo. A minha barriga já estava com um buraco. Eu já tinha sentido tanta fome que já tinha parado de sentir fome.

Chegamos ao PC camp e a única coisa que conseguíamos pensar em fazer era comer. Comi de tudo, muito. O meu estômago triturava tudo que eu botava para dentro e parecia que não tinha comido nada. Era uma sensação muito estranha. Pegamos o mapa da próxima seção e escolhemos a canoagem no Lacar.

O lago estava um espelho e o dia deslumbrante. O tempo estava um pouco apertado, por conta da Dark Zone, mas decidimos arriscar. Pegamos nossas bikes e fomos direto para lá. Entramos nos caiaques e saímos em busca dos 6 PC’s. O sol estava forte e nos maltratava. Nessa parte cruzamos com a equipe Seagate, voltando do fundo do lago, com a liderança isolada da prova, e vibramos com eles. Cruzamos também com a equipe francesa, que estava há uma hora de nós. O nosso tempo já estava apertado e remávamos forte para sair do lago antes das 9 da noite. Desconfiamos que eles ficariam presos na dark zone, e não deu outra!

Saímos do lago às 20:00, com tranqüilidade, mas quando fiz a transição vi que o pneu da minha bike estava vazio. Achei muito estranho porque, como ela é tubeless, a única coisa que poderia furar o pneu seria um rasgo na lateral. Fui correndo numa loja de bike para encher. Não havia rasgo, nada. Muito estranho, mas depois algumas pessoas que acompanhavam a prova vieram me dizer que alguém havia esvaziado o pneu. O que aconteceu de fato eu não sei, mas seja lá o que for tudo bem porque resolvemos rapidamente.

Voltamos ao camp e a nossa próxima opção era um trecho de bike longo. E essa bike foi dura. Subimos muito! Fomos até a praia de Quila Quina, encarando fortes subidas e descidas. Buscamos um PC por lá e depois seguimos para o Cerro Chapelco. Subimos até 2 mil metros em nossas bikes. Era uma subida constante, não muito forte, porém interminável. O PC estava bem escondido, numa trilha que já descia, Ficamos perdidos, batendo cabeça, e isso nos tomou tempo. Quando finalmente o encontramos achávamos que só nos faltava descer. E realmente era isso, mas não contamos com um erro de navegação. Descemos errados e tivemos que subir um montão de novo. Mas isso faz parte e voltamos para encontrar a descida correta. Ali sim buscamos o PC e depois só alegria morro abaixo!

Chegamos ao camp central para pegar o último mapa, da última seção da prova! Parecia que faltava pouco, mas o trecho que vinha pela frente era o maior trekking da prova. Saímos em bike até o PC de início do trekking e começamos a subir. Fomos no nosso ritmo, preocupando muito com a orientação para não termos que caminhar mais do que deveríamos. Fomos de PC a PC planificando nosso caminho, escolhendo os melhores lugares para passar. Do topo se pode ter a visão do todo e ali decidíamos o trajeto. Mas partes de vara mato colocávamos nossas calçar corta vento e partíamos para a guerra. Assim foi, com cabeça e planejamento, que enfrentamos esse trekking de um dia.

Já sentíamos muito sono e tínhamos de lidar com alucinações de todos os tipos. Eu ainda fiquei sem lanterna e tive que caminhar muito tempo no escuro, num terreno técnico onde acabava indo ao chão algumas vezes. Foi muito difícil. Meus tornozelos já doíam por conta da irregularidade to terreno e os terríveis trekkings que enfrentamos, mas essa era uma dor com a qual eu iria ter de conviver até cruzar a linha de chegada. A comida mais uma vez acabou e tivemos a sorte de encontrar uma lata de pêssegos em calda, aberta, numa barraca na Baía Melon. Aquilo foi o doce que nossas bocas precisavam e nos deu energia para seguir.

Conseguimos achar a trilha final que nos levava para o PC das bikes. Era uma trilha marcada e parecia um sonho não ter que varar mato para chegar de volta. Foi maravilhoso!

Chegamos ao PC e so nos restava pedalar de volta ao PC camp.

Aquela enorme aventura de 500km estava por acabar e nós, os segundos a terminar. A felicidade nesse momento é difícil de transmitir. É um mixto de alivio, alegria, cansaço, sono, tudo de uma só vez. É um sentimento muito intenso, coisa que só sabe quem vive. Das 33 equipes que largaram, apenas 7 terminaram. Foi uma guerra e nós sobrevivemos cruzando a linha de chegada em segundo lugar. Não tenho palavras para descrever o que se sente.

Para a nossa surpresa acabamos sendo “ultrapassados” pela equipe francesa, por um bônus que receberam da prefeitura por um tempo perdido na Dark Zone. Apesar de tudo isso não nos tirou a alegria de ter sobrevivido à uma experiência como essa e subir ao pódio ao lado dos melhores do mundo!

Obrigada à todos que nos apoiaram e tornaram a nossa conquista real, palpável, e possível.

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12 responses

1 03 2012
oscar

Manu querida, muy lindo relato, mis mas sinceras felicitaciones a vos , Dani, Nico y Fer

1 03 2012
manuvilaseca

Gracias Oscar!

2 03 2012
Jose

Hacer fuego no estaba prohibido???

2 03 2012
manuvilaseca

Estaba Jose, inclusive hablamos sobre eso y preguntamos se ivan a nos descalificar por eso. No escondemos de nadie. Todos con hipotermia y fue un caso de emergencia. Me parece que es amigo de Zenith, porque es el unico hasta ahora que me pregunto eso. Entonces debes saber o que tenian (proibido) y puedes pensarlo bien…

2 03 2012
Cristina Mattulich

Muy buen relato de la carrera! Felicitaciones Manu!!!

2 03 2012
manuvilaseca

Gracias Cristina! Felicitaciones para vos tambien!

2 03 2012
leo

Te felicito a vos y a tus compañeros.
Por qué no participas con un equipo totalmente de Brasil??

3 03 2012
manuvilaseca

Gracias Leo!
Porque siempre corro con Pincu, y entonces armamos un equipo para correr con nosotros.

3 03 2012
karla

Manuela conheco vc pouco,sou do carioca runners,mas sempre sonhei desde infancia nestas aventuras , lendo agora seu blog , penso nesses sonhos de menina.
bjs mil
parabens sempre
karla

3 03 2012
manuvilaseca

Oi Karla

Fico feliz que o meu relato tenha te trazido memórias de sonhos de infância. Acho que você descreveu bem, porque tudo isso que faço parece muito mais um sonho do que realidade. Estar ali e viver tudo que vivi parece não ter sido real, principalmente quando chego de volta em casa.
Obrigada pelo carinho.
Beijos!

7 03 2012
Breno Galvão

Parabéns Manu pela grande aventura!!!

Grande atleta!!!

8 03 2012
manuvilaseca

Muito obrigada, Breno!

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