Xterra World Championship – Maui, HW

25 10 2011

A minha parada dessa vez foi em solo americano, numa ilha paradisíaca no meio do pacífico. Minha prova era o Campeonato Mundial do Xterra em Maui, no Havaí.

Participar de um campeonato mundial é uma coisa curiosa. Apesar do enorme peso da prova, de estar dentre os grandes nomes do triathlon mundial, o compromisso não era tão grande. Isso não por estar dando pouca importância à prova. Isso porque eu não tinha expectativa nenhuma de colocação, levando em consideração que eu estava largando lado a lado aos melhores atletas do mundo.

Eu estou treinando bastante e tentando crescer dentro dessa modalidade mas tenho consciência de que isso leva tempo e que a gente tem que ter paciência, principalmente para não se frustrar. E tem sido assim, como diz meu pai, “day by day”. Mas a oportunidade de vir para cá eu não quis desperdiçar. Apesar de achar que pode ser um pouco cedo, eu acho que o momento de fazer as coisas é o momento em que a vida nos proporciona. Um amigo meu uma vez me disse: “Oportunidade tem cabeça e rabo. Se você não pega pela cabeça fica difícil de puxar pelo rabo”. Sendo assim fiz minhas malas e embarquei.

Fui com antecedência por alguns motivos. Um deles a distancia. Tive que pegar um vôo para Atlanta de 9:30. Depois peguei um vôo para Honolulu de 9:50. Depois um vôo para Maui de 40 minutos. Outro motivo: o fuso. A diferencia de Maui para o Rio de Janeiro é de 8 horas para trás. Eu tive que trocar a noite pelo dia. Último (mas não menor) motivo: o reconhecimento do percurso, com uma bike nova. Eu precisava me adaptar com a nova bike e ainda reconhecer o percurso da prova.

Saí na segunda de noite, cheguei na terça de noite (ganhei 8 horas de fuso!) e na quarta pela manhã já estava em Kapalua, local da prova, para reconhecer o percurso da corrida. Fazia calor e eu já sabia que esse seria um fator determinante na prova. Saímos para correr e já de cara começamos a pegar subidas. A trilha era bem batida, com poucos obstáculos, mas subia bastante. No meio dos 10km de corrida duas subidas me marcaram bem. Apesar de ter subido tudo correndo imaginei que no dia da prova, após desgaste do pedal e o calor, não fosse conseguir. O final da corrida era na areia da praia, depois pegando a subida de volta para o hotel. Foi um bom treino e deu para ver que na prova não seria fácil.

Depois fomos nadar no mar da praia de Kapalua. Água maravilhosa, cristalina, que tornava a natação uma viagem ao imenso mundo subterrâneo.  Peixes, tartarugas, tudo que a gente tinha direito. Apesar da beleza de tudo isso, havia uma grande correnteza. O vento era forte e o mar com muitas marolas. Tudo indicava que o início da prova já seria conturbado.

Depois de tudo isso fui buscar minha bike. Quando cheguei na loja, para a minha surpresa, ela ainda não estava montada. Eu estava preocupada, quase estressada. Queria a bike pronta na quarta de qualquer jeito porque queria fazer o percurso inteiro da bike na quinta, com tempo de recuperar para domingo. Eu já tinha escutado que estava duro e achava importante fazer esse reconhecimento na quinta.

Apesar da loja fechar às 6:00, consegui a boa vontade do Dave, mecânico de lá, que ficou para montá-la e me ajudar. Quando ela finalmente ficou pronta eu não acreditei. Lá estava minha Niner, toda laranja, toda linda. Eu babava. Nem acreditava ter tornado aquele sonho real, palpável. É uma loucura isso mas sei que quem pedala me entende. É melhor que comprar um carro novo. A gente volta a ser criança e os olhos ficam brilhando ao olhar para o brinquedinho. Eu estava muito feliz.

Na quinta feira cedo lá estava eu de novo em Kapalua, dessa vez para fazer o percurso do mountain bike. Peguei meu kit com meu número e fui andar.

Ao sair do hotel já pegávamos uma subida de asfalto bastante íngreme. Em seguida já aparecia o single track. Esse single era bastante divertido, com muitas curvinhas fechadas para os dois lados. Ali dentro subida e descida constantemente. Nada travado. Um trecho que iria fluir bem, até porque existiam muitos pontos de ultrapassagem. Depois do single começou o estradão, e com ele, as subidas fortes. Era tudo descampado e o sol rachava. Até a milha 8 a bike subia bastante. A última das subidas um pouco mais longa. Quando chegava lá em cima era possível ter uma linda vista da ilha.

Dali em diante as descidas. Descidas de alta velocidade, que muitas vezes eram surpreendidas por uma curva “cotovelo” na direção oposta. Aquilo ali para a minha Niner era um prato cheio. Parecia que eu estava andando de moto! Desciamos bastante até chegar numa estradinha paralela ao asfalto. Depois voltávamos a subir. O percurso finalizava mais uma vez no single track, dessa vez na direção oposta, para a chegada na área de transição na frente do hotel.

Tendo reconhecido as três modalidades da prova foi fácil concluir que a prova seria muito dura. Mas o titulo em jogo era de campeão mundial, então nada mais justo que o percurso da prova fosse  exigente.

No domingo às 8:10 da manhã lá estava eu, de toca de natação e óculos na cabeça, descalça na areia, com tudo pronto na transição, já preparada para a prova. Aproveitei a antecedência e entrei na água para aquecer. Fui nadando até a primeira bóia, que estava bem distante. Eu precisava aquecer bastante e por isso planejei estar pronta bem antes da largada. Eu estava tranqüila e fui nadando para aquecer, ao mesmo tempo curtindo a água transparente e o momento lindo. Voltei para a areia, bebi água, e comecei a me posicionar na parte da praia onde queria largar. Ali não era necessário largar embaixo de um pórtico. Ainda bem porque seriam 700 atletas!

Quando faltavam 15 minutos para a largada já mandaram todos os atletas saírem da água, para uma reza havaiana de boa sorte. Estávamos todos prontos. Um momento mágico. Um pouco ao meu lado direito lá estava ele: Lance Armstrong! Eu nunca imaginava ver o Lance ao vivo na vida e lá estava ele, a 3 metros de mim, largando na mesma prova que eu. E não digo só Lance. Só tinha fera! Era inacreditável e eu estava vivendo aquele momento único. Eu só tinha a agradecer a oportunidade de estar lá.

Às 9:00 em ponto foi dada a largada na praia de Kapalua. Os 700 atletas correram para dentro d’água, cada um com seu objetivo, com sua meta, tentando dar o máximo entre aqueles 700 grandes nomes.

Eu comecei tranqüila, mas tomei muita pancada. Tinha muita gente, mas eu imaginei que a largada em praia aberta fosse minimizar tudo isso. Eu desviava de um lado para o outro, tentando me esquivar de tudo, ao mesmo tempo olhando para a bóia para não perdê-la de vista. Cheguei a tomar um soco no nariz, mas por sorte meu óculos não saiu. Embora eu estivesse lutando para sobreviver ali no meio daquela confusão, eu também conseguia aproveitar a beleza do mar. Era simplesmente lindo.

Saí da primeira volta e olhei para trás para conferir como eu estava em comparação ao resto. Eu acho que estava mais ou menos no meio. Aí veio aquela corrida na areia, pesada, que fez o coração subir antes de entrar mais uma vez no mar. A segunda volta foi mais tranqüila. Já tinha espaçado  bastante e eu já consegui nadar melhor, fazendo mais força. Contornar as bóias dessa vez foi bem mais fácil do que na primeira volta. Saí na areia e fui correndo na ladeira acima para a área de transição. Olhei no relógio e vi 28 minutos, um tempo bem pior do que eu venho fazendo. Mas isso depois fui saber que eu não nadei mal. As pessoas todas estavam fazendo um torno de 4 minutos a mais.

Quando cheguei na transição vi os cavaletes da categoria profissional masculina vazios. Na feminina ainda haviam bikes ao lado, não sabia quantas, mas eu não era a última! Subi na bike e saí pedalando forte, rumo aos 30km de puro mountain bike que vinham pela frente.

O começo foi um pouco complicado para mim. Pegar aquela subida no começo não foi fácil, mas quando entrei no single comecei a conseguir recuperar. Eu estava bem, ganhando posições, quando tomei um susto. O meu selim girou, apontando para cima, e fez um barulho tão forte que eu imaginei ter quebrado o canote. Foi uma ducha de água fria, mas desci da bike e peguei minha ferramenta para arrumar. Engraçado como são as coisas. Eu não ia levar essa ferramenta. Aos 45 do segundo botei ela dentro da bolsinha da bike. Parece que foi a vida me mostrando que esse tipo de peso a gente não pode economizar. Eu acho que aprendi.

Eu sofri várias ultrapassagens, mas consegui arrumar e voltar a pedalar. Fui recuperando aos poucos e retomando um pedal forte. Eu estava fazendo uma prova totalmente para mim. Naquele mundo todo mundo é forte, imaginem então os atletas de elite. É realmente outro nível. Eu olhava as plaquinhas das meninas que conseguia passar e todas elas estavam com o número azul, de amador. Até que num certo momento, numa subida forte, ultrapassei uma menina de numero vermelho, de profissional. Foi um momento importante para mim.

Cheguei no topo da subida e ali começavam as descidas. Pesei as marchas e larguei o freio. Ali foi diversão pura. Não dava para pensar em cair. Eu segurava o guidão com força e deixava descer. Foi muito divertido. Num certo momento um cara que descia atrás de mim botou a bike ao meu lado e me disse que não estava conseguindo me acompanhar nas descidas. Fiquei toda feliz.

O percurso estava muito empoeirado. Era impossível andar sem óculos e ainda bem que eu estava com o meu. Em certos momentos entramos em lugares que pareciam piscinas de poeira. Era necessário frear porque não dava para enxergar um palmo na frente. Por isso todos os atletas estavam pretos. Suor + poeira dá nisso!

Quando me dei conta já estava de volta no sigle track para finalizar a parte do mountain bike. Eu nem acreditava. Parecia ter passado tão råpido.

Fiz a transição e saí para a parte final da prova, a corrida. Estava muito quente. O sol cozinhava todo mundo vivo. Pessoas caíam, desmaiavam, andavam cambaleando. Eu estava com as pernas cansadas mas não queria andar. Comecei num ritmo bem devagar, mas correndo. Eu não queria me entregar, apesar da tentação ser grande. Eu estava indignada porque sentia que corria num ritmo muito lento. Mas quando me dei conta eu vi que muitos estavam passando pela mesma dificuldade.

Depois de algumas fortes subidas começaram a vir as descidas. Ali consegui recuperar e imprimir um bom ritmo de corrida. Fui me recuperando e assim como nas outras duas modalidades, senti que fui num crescente.

Avistei uma mulher de numero vermelho. Era mais uma que eu poderia tentar ultrapassar e melhorar a minha colocação. Observei um pouco o ritmo dela e vi que eu estava mais forte. Numa descida que tive oportunidade aumentei o ritmo e ultrapassei pela esquerda, já emendando numa subida que acelerei para tentar abrir. Minha corrida foi ficando mais consistente e fui melhorando. O calor estava de matar e eu bebia água a cada posto de hidratação e também jogava na cabeça. Quando me dei conta já estava na praia, no trecho final da praia. A areia parecia movediça. Era uma coisa de louco. Eu parecia estar sendo sugada e olhava lá para cima, para a linha de chegada, feliz com a prova que estava fazendo. Comecei a subir e muita gente estava lá torcendo. Tinha gente de todo o mundo, escutava todos os idiomas. Era um momento mágico. Quando cruzei o pórtico escutei meu nome no microfone, do Rio de Janeiro, Brasil, enquanto recebia um colar de flores no pescoço. Eu acabava de cruzar a linha de chegada do campeonato mundial do Xterra,  para a minha surpresa em 14 lugar no profissional, de 26 atletas.

Eu estava muito feliz. Naquele momento foi possível ver como todo o esforço é válido. Cada dificuldade, cada sacrifício, tudo se justifica naquele momento. Toda nossa vida fica nítida, nossos valores, nosso jeito de pensar e nossa forma de ser. Nosso estilo de vida, o amor ao que fazemos, tudo isso. Cada dia tenho mais certeza de que temos que buscar o que nos deixa feliz. E eu tenho motivos de sobra para dizer que sou muito feliz.

Não posso deixar de agradecer a ajuda e o apoio de todos. Minha família, que aprendeu a conviver com a minha “insanidade” e hoje me apóia em tudo que faço. Meu amigos que entederam que eu sou assim, que me admiram e me respeitam. Meus treinadores, que me descascam e me cobram para que eu evolua. Meus apoiadores, que me dão o material e a assistência para que eu possa competir com qualidade. Muito obrigada à todos que me ajudam a concretizar as minhas conquistas.

MAHALO!

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8 responses

25 10 2011
xampa

Parabéns pelo resultado !!!
Deve ter sido demais. 14a? Puuutzzz.
Depois coloca uma foto do camelo novo.
Inté !

25 10 2011
manuvilaseca

Obrigada Xampa! Vou colocar fotos sim! 🙂

25 10 2011
Rosemary Franca Gonzales

Parabéns Guerreira Woohooooo!!! Ficamos pensando em você na segunda feira peguei sua colocação na página do XTerra. Quantas informações adorei sim posta fotos queremos vê-las viajei com sua narração agua cristalina, Lance Armstrog dá próxima vez que encontrar ele fala que o Casal 20 Rose e Cido Sorocaba SP Br mandou um abraço :):):). Felizes por suas conquistas e muito mais felizes em sentir sua felicidade nas palavras que escreve. Grande Beijo, Rose e Cido Casal 20 os Bikers.

26 10 2011
manuvilaseca

Casal 20, obrigada pela força e pela torcida sempre! Que bom que gostaram do relato 🙂
Assim que tiver fotos vou postar.
Grande beijo

26 10 2011
Fernanda Cansanção

Manu, com os braços e pernas arrepiados, imagino sua emoção na prova.

Sem dúvidas pude ver atraves do seu relato tamanha emoção e adrenalina de estar nesta prova.

Super parabens e que você continue crescendo dentro do Triathlon Off Road!

Beijos

26 10 2011
manuvilaseca

Fê,
Mega obrigada pela força sempre!
Super beijo

26 10 2011
Alexandre Magno Gaia

Lindo Relato Manu!!! Como sempre!!! Muito bom acompanhar suas vitórias, que me ensina e motiva cada vez demais !!! PARABÉNS!!! SOU SEU FÃ #2!

26 10 2011
manuvilaseca

Alexandre, é muito bom saber que posso motivar outras pessoas a fazerem o que eu faço. Obrigada por acompanhar e torcer por mim 🙂
Grande beijo

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